prof. Dr. Natanael Gabriel da Silva
Hoje quero defender uma tese diferente de tudo o que você já ouviu, leu e viu sobre o surgimento da igreja. igual e pode ser um deles - e uma das perguntas foi sobre o quando da igreja ter sido constituída. A resposta, por convicção ou prudência, foi a de que a igreja, como nós a conhecemos, se fez no dia do pentecostes. Foi claro. Teria sido naquela ocasião que as dimensões fundamentais da comunidade convergiram sinteticamente num único momento: manifestação histórica e definitiva do Espírito Santo, sacrifício vicário de Jesus dado como ato completo, cumprimento de uma profecia, pregação, conversões, universalizaçã o do conteúdo de fé a todas as nações, e por aí se vai. Tem gente que afirma, de pé junto, que a comunidade apostólica, muito antes disso, já se constituía como igreja, uma vez que a pessoalidade de Jesus não poderia ser considerada menor que a do Espírito Santo.
Ao mencionar o pentecostes, o examinador deu um sorriso meio de canto: eles estavam acreditando do mesmo modo.
Eu vou deixar esse pessoal discutindo. Nunca foi possível a comprovação de uma coisa ou outra e quero fundar uma nova teoria: a igreja nasceu com a viúva pobre. Já fundei a igreja do abraço, agora vou encontrar um outro lugar para apontar o surgimento da igreja. Nada de apóstolos, profetas e homens. Nada disso. A igreja sendo fundada por uma mulher, e ainda mais viúva. Fora do círculo apostólico, para alguns suspeitos de defender o próprio cantinho. Também sem sobrenaturalismos e das longas discussões sobre dons espirituais, se há ou não um fenômeno do falar em línguas, estrangeiras ou estranhas, nada daquele debate da preocupação com o texto literal cuja interpretação de todo um credo depende de um advérbio “línguas como que de fogo”, e daí ficar discutindo se era “como” mesmo ou se há uma indicação de um fogo simbólico que tem que tomar conta da igreja que “pega fogo” ou o seu contrário, “que povo frio!”, emprestado do Apocalipse. Nada disso, e ficar contando quantas nações havia por ali, se a igreja de Roma nasceu mesmo daquele grupo ou não, se Pedro dizia uma palavra e depois a repetia em cada idioma, até completar o número das tantas etnias mencionadas, ou se Pedro pregou um sermão só e o Espírito Santo é que o interpretou de acordo com o lugar de nascimento de cada um, se o dom estava em Pedro, ou fora dele, nada de ficar especulando essas coisas para reafirmar essa doutrina ou aquela como prova de que, no nascimento da igreja, aconteceram coisas que terão que se repetir pelos séculos dos séculos. Gente negando uma coisa, afirmando outra, ênfase no discurso de Pedro e no sobrenaturalismo ali manifestado. Quero esquecer essa discussão que busca esse tipo de fundamento da igreja, que tem que começar com um problema teológico, sem resposta, para fazer do intérprete que arrisca uma opinião parecer mais sabido do que de fato é. Vamos esquecer esse negócio.
Enquanto você fica pensando no pentecostes e tenta encontrar num dicionário bíblico o que aquele dia significava, e ler o texto outra vez para saber quem está com a razão, quero convidá-lo a pensar na viúva, e já vou afirmando que ela entregou as moedinhas com ou sem Espírito Santo, com ou sem sacrifício completo de Jesus, com ou sem sermão, com ou sem conversões, se tinha gente olhando ou não, se era ou não a sua obrigação, se fez ou não para ser observada por outros, se desejava ou não receber tudo de volta em forma de qualquer benefício, se tinha nome ou não, se desejava receber galardão ou não, se sabia o que era galardão pra começar, se isso iria fazê-la estar mais próxima de Deus ou não, se era o dízimo ou não, se agradeceu a Deus pelo privilégio de ofertar ou não, se teve medo do dia seguinte, se ia faltar pão, ou não, se tinha gente que seria batizada por conta daquele testemunho ou não, se os outros estavam fazendo o mesmo ou não, se o valor era justo para todo o mundo ou não, se a comunidade religiosa para a qual contribuía estava certa ou não, se a doutrina estava sendo focada era correta ou não, se o sacerdote iria roubar as suas moedas ou não, se havia pré-milenismo ou não - quem escreveu Hebreus?
Caso você seja rigoroso com texto, é possível afirmar que a viúva sequer teve uma experiência de profundidade com Deus, não levantou a mão como sinal de conversão, não disse palavras-chaves, aliás não disse nada. Talvez nem soubesse da existência de Jesus. Com certeza não foi batizada, não teve expulsão de demônio, nem cura, ninguém sendo carregado em maca, cego vendo ou aleijado andando. Não teve nada disso. Não se sabe se viveu o suficiente para ver o crescimento da igreja, ou se acabou se tornando de fato uma cristã, com profissão de fé e tudo o que tem direito. Não teve texto, sequer a gente pode saber se era ou não alfabetizada - parece que não - se tinha ou não algum amparo. Afinal, o que fizera para conseguir as duas moedinhas? Que diferença as duas moedinhas fariam para o Reino de Deus? Sem intenção, declaração formal, expectativas, doutrina ou cobranças. Nada. Sem milênio, circuncisão ou predestinação. Nada. Apenas uma coisa, e tem que ter alguma coisa: as ofertas eram depositadas na arca do tesouro, e o nome já diz que não era lugar para o que sobra, conhecido mais como rejeito ou lixo. Na casa do tesouro funciona assim: ou é tudo, ou nada. Ou é tesouro, ou não serve. Se vai depositar alguma coisa, que seja algo muito, mas muito importante.
E daí? O que acha da minha teoria? Não precisa responder. Eu sei que você vai continuar com o seu discurso tentando reafirmar que a igreja teria que ter começado com algo meio confuso, meio escondido e muito misterioso. Afinal de contas uma viúva, é apenas uma viúva, não forma uma comunidade. Só Lucas se importou com ela. Não o culpo. Já acreditei nisso. Hoje prefiro entender a igreja como tendo surgido a partir dos excluídos, de quem não tem esperança, interesse ou qualquer tentativa meio escondida de trocar uma coisa por outra, um benefício por outro, uma entrega qualquer por algo melhor, a sobra pelo tesouro, mesmo que este receba o nome de eternidade.
Bem, talvez essa minha teoria não sobreviva ao amanhecer, e seja apenas um sonho, em forma de recordação: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Então Israel era santidade para o SENHOR, e as primícias da sua novidade (Jeremias 2:2,3 parciais). Sabe de uma coisa? Tenho muita saudade disso! É bom saber que um dia, uma mulher, viúva e anônima, desafiou todo um sistema religioso, e se fez exemplo de pureza e entrega.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
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